Quando chegámos a 74 tínhamos apenas uma pequeníssima parcela do território
intervencionada e monitorizada pelo Estado moderno. Havia apenas um pequeno palco em
condições, onde o regime atuava para si próprio virado de costas para o resto do país que o
sustentava. Do outro lado do palco estavam os bastidores onde, ao deus-dará, trabalhava e
dormia a maioria da população. Uma boa parte destes bastidores era rural e nela a vida
desenrolava-se seguindo rituais perpetuados por milénios. Aqui, o dia-a-dia era moldado pelo
saber neolítico pouco útil à luz do pós-guerra mundial. A outra parte, mais recente, era um
crescendo de ações suburbanizadoras, de carácter igualmente miserável ou ainda mais.
Famílias descalças (como a do meu Pai) foram erguendo clandestinamente as suas barracas e
os seus bairros de madeira e lata. Insalubres ilhas suburbanas foram emergindo no velho mar
de ruralidade. Foram se formando arquipélagos rodeados de pequenas hortas, reminiscências
de um campo que se ia tornando baldio. Pelo meio deste novo palco, um emaranhado de
estradas inacabadas e prédios malparidos foram sendo construídos. Um conjunto de pequenos
e empresários, também eles sem o amparo de um Estado capaz, esforçava-se por fazer cidade.
Para sobreviver, fazia-se o país ao calhas, onde houvesse espaço e onde o preço do terreno
fosse mais barato. Nas avenidas novas das cidades a máquina do Estado seguia alucinada,
brincando às guerras e encenando o seu império, para privilégio dos seus funcionários e da sua
própria clientela.
Finalmente em 74 o cenário caiu e todos passaram a ser protagonistas. Mas o palco estendeuse para o caos. Agora havia milhões para dirigir e, dificultando ainda mais o processo, centenas
de milhares retornavam com uma mão na frente e outra atrás. Foi com tudo isto que a
democracia teve de lidar e foi isto tudo que o nosso Estado falido teve de passar a governar,
uma multidão de pobres e analfabetos.
Muita coisa melhorou desde então, mas demorou décadas e o trabalho não está terminado. A
deformação estrutural do território parece impossível de resolver. Sobre esta estrutura mal
planeada, fruto de uma longa e precária prática, foi-se construindo uma imensa e
desequilibrada infraestrutura. A intervenção do Estado era necessária e urgente, todavia
mantém-se muitas das deficiências herdadas. O país cresceu torto, frágil, e daqui para a frente
será sempre um esforço redobrado tentar melhorá-lo. Na verdade, perceber o que é para
melhorar no meio de tanta confusão acumulada é uma missão quase impossível. Sentem-se os
sintomas sem se vislumbrar a doença. Nesta espécie de abismo, onde a teoria e ciência quase
não entram, vamos avançando devagar tentando adivinhar o caminho.
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024
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