quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Fazia-se o país ao calhas.

Quando chegámos a 74 tínhamos apenas uma pequeníssima parcela do território intervencionada e monitorizada pelo Estado moderno. Havia apenas um pequeno palco em condições, onde o regime atuava para si próprio virado de costas para o resto do país que o sustentava. Do outro lado do palco estavam os bastidores onde, ao deus-dará, trabalhava e dormia a maioria da população. Uma boa parte destes bastidores era rural e nela a vida desenrolava-se seguindo rituais perpetuados por milénios. Aqui, o dia-a-dia era moldado pelo saber neolítico pouco útil à luz do pós-guerra mundial. A outra parte, mais recente, era um crescendo de ações suburbanizadoras, de carácter igualmente miserável ou ainda mais.

Famílias descalças (como a do meu Pai) foram erguendo clandestinamente as suas barracas e os seus bairros de madeira e lata. Insalubres ilhas suburbanas foram emergindo no velho mar de ruralidade. Foram se formando arquipélagos rodeados de pequenas hortas, reminiscências de um campo que se ia tornando baldio. Pelo meio deste novo palco, um emaranhado de estradas inacabadas e prédios malparidos foram sendo construídos. Um conjunto de pequenos e empresários, também eles sem o amparo de um Estado capaz, esforçava-se por fazer cidade. Para sobreviver, fazia-se o país ao calhas, onde houvesse espaço e onde o preço do terreno fosse mais barato. Nas avenidas novas das cidades a máquina do Estado seguia alucinada, brincando às guerras e encenando o seu império, para privilégio dos seus funcionários e da sua própria clientela.

Finalmente em 74 o cenário caiu e todos passaram a ser protagonistas. Mas o palco estendeuse para o caos. Agora havia milhões para dirigir e, dificultando ainda mais o processo, centenas de milhares retornavam com uma mão na frente e outra atrás. Foi com tudo isto que a democracia teve de lidar e foi isto tudo que o nosso Estado falido teve de passar a governar, uma multidão de pobres e analfabetos.

Muita coisa melhorou desde então, mas demorou décadas e o trabalho não está terminado. A deformação estrutural do território parece impossível de resolver. Sobre esta estrutura mal planeada, fruto de uma longa e precária prática, foi-se construindo uma imensa e desequilibrada infraestrutura. A intervenção do Estado era necessária e urgente, todavia mantém-se muitas das deficiências herdadas. O país cresceu torto, frágil, e daqui para a frente será sempre um esforço redobrado tentar melhorá-lo. Na verdade, perceber o que é para melhorar no meio de tanta confusão acumulada é uma missão quase impossível. Sentem-se os sintomas sem se vislumbrar a doença. Nesta espécie de abismo, onde a teoria e ciência quase não entram, vamos avançando devagar tentando adivinhar o caminho.

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